O tempo impresso

Straurogin: ... no Apocalipse, os anjos juram que o tempo não mais existirá.
Kirillov: Sei disso. E uma verdade indiscutível, afirmada com toda clareza e exatidão. Quando a humanidade alcançar a felicidade, não existirá mais o tempo, pois dele não mais se terá necessidade. Perfeitamente ver¬dadeiro.
Stavrogin: Onde vão colocá-lo, então?
Kirillov: Não vão colocá-lo em lugar nenhum. O tempo não é uma coisa, é uma ideia. Ele morrerá na mente.

F. Dostoievski, Os Possessos


O tempo constitui uma condição da existência do nosso "Eu". Assemelha-se a uma espécie de meio de cultura que é destruído quando dele não mais se precisa, quando se rom¬pem os elos entre a personalidade individual e as condições da existência. O momento da morte representa também a morte do tempo individual: a vida de um ser humano torna-
se inacessível aos sentimentos daqueles que continuam vi¬vos, morre para aqueles que o cercam.
O tempo é necessário para que o homem, criatura mor¬tal seja capaz de se realizar como personalidade. Não es¬tou, porém, pensando no tempo linear, aquele que deter¬mina a possibilidade de se fazer alguma coisa e praticar um ato qualquer. O ato é uma decorrência, e o que estou le¬vando em consideração é a causa que corporifica o homem em sentido moral.
A história não é ainda o Tempo; nem o é, tampouco, a evolução. Ambos são consequências. O tempo é um esta¬do: a chama em que vive a salamandra da alma humana.
O tempo e a memória incorporam-se numa só entidade; são como os dois lados de uma medalha. É por demais ób¬vio que, sem o Tempo, a memória também não pode exis¬tir. A memória, porém, é algo tão complexo que nenhuma relação de todos os seus atributos seria capaz de definir a totalidade das impressões através das quais ela nos afeta. A memória é um conceito espiritual! Se, por exemplo, alguém nos fizer um relato das suas impressões da infância, pode¬remos afirmar, com certeza, que temos em nossas mãos ma¬terial suficiente para formar um retrato completo dessa mesma pessoa. Privado da memória, o homem torna-se prisio¬neiro de uma existência ilusória; ao ficar à margem do tem¬po, ele é incapaz de compreender os elos que o ligam ao mun¬do exterior — em outras palavras, vê-se condenado à loucura.
Como ser moral, o homem é dotado de memória, a qual lhe inculca um sentimento de insatisfação, tornando-o vul¬nerável e sujeito ao sofrimento.
Quando os críticos e eruditos estudam o tempo da forma como este se manifesta na literatura, na música ou na pin¬tura, mencionam os métodos de registrá-lo. Ao estudarem, por exemplo, Joyce ou Proust, examinarão a mecânica es¬tética da existência no retrospecto das obras, e a maneira como o indivíduo que evoca lembranças registra sua expe¬riência. Eles estudarão as formas das quais a arte se vale para fixar o tempo, ao passo que, aqui, estou interessado nas qualidades morais e intrínsecas essencialmente ineren¬tes ao tempo em si.
O tempo em que uma pessoa vive dá-lhe a oportunidade de se conhecer como um ser moral, engajado na busca da verdade: no entanto, esse dom que o homem tem nas mãos é ao mesmo tempo delicioso e amargo. E a vida não é mais que a fração de tempo que lhe foi concedida, durante a qual ele pode (e, na verdade, deve) moldar seu espírito de acor¬do com seu próprio entendimento dos objetivos da existên¬cia humana. No entanto, a rígida estrutura na qual ela se insere torna nossa responsabilidade para conosco e para com os outros ainda mais flagrantemente óbvia. A consciência humana depende do tempo para existir.


Tarkovski em "Esculpir o Tempo" - texto lido pela Anna Dulce

24\01\08

 

(Aquele ensaio em que o Pitta san ainda fumava...)

 

1-     Começamos o encontro por volta das 18:45 , e discutimos meio pé de assunto antes da Carú aparecer pra explicar para o grupo porque é que ela não vinha mas. Foi bem legal da parte da Carú aparecer pra falar com o grupo todo e mais uma vez agente se embananou todinho, nem ela falou que não vinha mais e nem a gente conseguiu falar muita coisa.

( Acho mesmo que o Clovis estava certo quando disse que nós discutimos de mais, parece que a energia Yin que predomina no grupo fez com que tenhamos muitas Dr’s.)

 

2-     Retomamos os jogos da Anne Borgat no aquecimento e foi possível observar que o último exercício foi executado com mais ansiedade do que no ensaio anterior. Pode ser  que esse jogo sirva como diagnóstico do dia.

Em um dos jogos a gente tinha que tentar alcançar as costas do coleginha da frente sem deixar seu tocado pelo coleginha de trás, em algum momento do jogo a Verô pediu que a gente não corresse, foi difícil baixar a velocidade devido ao excesso de competitividade dos coleginhas ( Ou algum nível de absurdo na proposta??)

Esse jogos são mais dinâmicos do que os jogos de aquecimento que nós fazíamos no ano passado, parecem proporcionar um ‘’estado de trabalho’’ para o corpo mais rapidamente.

 

3-     Trabalhamos os direcionamentos ósseos do Klauss Viana, algumas pessoas, inclusive eu, sentiram dificuldade em trazer os direcionamentos para o movimento.

 

4- Trabalhamos as cenas da primeira seqüência da hidráulica, a proposta é que cada um dividisse sua cena em pequenas partituras.

Executamos as partituras primeiro em 16 tempos, depois em 8, 4 e 2 tempos. Começamos a esculpir o tempo da Lena.

 

5- Estamos trabalhando ainda no limbo de não saber o que será do nosso projeto, em suspenção...Trabalhamos por trabalhar, pra trabalhar e porque trabalhamos juntos / acho que no fim das contas a gente só queria se ver.

 

6- Feliz 2008 Jonny!!!!!

 

 

Protocolo Anna Dulce.

23/01/08

 

Encontro prático, o corpo volta ao trabalho, uma preguiça inerte começa a dar lugar à outros estados.

Novos jogos de prontidão e presença são apresentados ao grupo. O corpo se organiza para adaptar-se a regra.

Correr todos juntos, coração acelerado chão.

Identificar o peso das partes do corpo, observar sua estrutura e suas sutis  alterações.

‘’ Nossa como eu estou tensa.’’

Meu corpo foi encontrado o chão, cedendo a gravidade, reposicionando os apoios.

Esfregando a pele no chão, cada lado, ativando e despertando a presença de cada parte.

Utilizar os apoios para passar de um nível à outro do espaço.

Recuperar nosso experimento hidráulico ‘’Na sala branca, sem objetos’’...

Tarefa complicado, porém muito divertido e sugestivo.

O corpo ganha evidência, destaque, a qualidade e desenho dos gestos denúncia suas intenções.

Interessante observar as novas ‘’edições’’ , que nossas imagens podiam ganhar...E quem sabe, talvez, transbordar para além dos muros hidráulicos.

 

 

 

Protocolo de Kátia Lazarini.

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