Para nós mesmos. Para o ar congelado, onde queremos mostrar a ele que existe vida e movimento na hidráulica. Para as máquinas que nos usa para conversar, já que elas não têm com quem falar.
Falamos para o público e para quem quiser ouvir, ora falamos com as máquinas e com tudo que tem ali. No fundo falamos para nós mesmos para o tempo. Talvez alguém interessado em teatro ou cinema.
Ai. Toda humanidade parece imbecil. Não vejo as coisas como sendo para alguém em especial, talvez não me pareça: Ai, ai. Para todos que buscam se verem como responsáveis pela humanidade, pelo rumo dela, pela sua história. Um público que vê sempre a ‘responsa’ em outro lugar, que não
Eu não sei mesmo, de algum modo para todos, pois acho que essa busca de ancestralidade, os questionamentos que estão surgindo não são específicos a grupos, mas a todos. É uma relação do homem e sua criação, do tempo assado e a pressa dos dias. Acho que o público pode ser qualquer um que queira tocar um pouco nessa ferida, nesse masoquismo de pensar e repesar, sentir, criar novos mundos.
Pessoas inquietas. Duras – o oposto de moles. Insatisfeitas. Boas inquisidoras. Reflexivas. Jovens. Estudantes da USP. Senhores da POLI, transmutados hidráulicos. Seres humanos duros e moles ($). Quem cansou da TV, de entretenimento, de ver o tempo passar, de pagar o preço da pressa. Um pipoqueiro.
(ou resposta para outra pergunta, sobre o tempo presente)
O que é a verdade e o que é o irreal? Me comunico com as paredes e as máquinas como se delas emergissem rostos, com ouvidos, que pudessem ver e ouvir. O que me aflige é esses rostos desses seres serem mudos: a réplica é telepática, lhes ouço na minha mente. Vou pirar.
Desculpa, não sei responder.
No início achei que essa era uma pesquisa que só interessasse a pessoas de teatro, uma vez que seria um resultado muito técnico, mas da primeira vez que vi as coisas acontecerem na hidráulica, vi que é um trabalho para pessoas que entendem e se sensibilizam com as imagens por outras vias que não sejam as racionais. Quando entro na hidráulica, entro como em uma exposição de vídeo arte, numa galeria... Eu sou um público.
Me traz a idéia de missão, como chegar em uma casa nova e botar ordem na bagunça. Hora de lembrar do passado e planejar o futuro. Junto com isso, viver momentos marcantes. A missão para mim é mudar a cara do espaço, é encontrar essa nova cara...
Falamos com o tempo, como máquinas. Acho que há uma grande influência nisso. Crises, stress. Queremos por vida, movimentar, responder o oposto do que o espaço nos quer expressar. Morte, a luzes de hospital. Recortes demais, nos dá vontade de sermos uma foto. Quanto mais gritamos, menos escutamos. Parece que o espaço não deixa fazer o que queremos.
Abstrair o concreto, o ferro, o aço, a água. Levar a voz a todos os lugares, até debaixo de nós. Vontade de saltar, pular muito alto. Vontade de crescer. Dar o troco: engolir o espaço que tenta me engolir. Explorar o inexplorável: até as águas que dão nojo. Adentrar o subsolo oco que desconhecemos.
Neste espaço parece que a dimensão humana se abala, o olhar se torna mais reto e fica menos subjetivo... mas os pequenos esconderijos já começam a ganhar significação. O corpo se perde mais e fica mais permeado pelos outros elementos do lugar. Nada me vem a cabeça que seja leve ou feliz, é tudo muito pesado e duro. Algumas imagens começaram a surgir e os sons são interessantes, mas assustadores.
Fala pelo contrário, da vida do corpo da alma, suscitou tudo aquilo de mais primitivo e tudo que acaba com a espontaneidade. Admirar nossa desgraça, mas ver que o primordial – vivo - está ali. Os pássaros, o coro, os macacos, a curiosidade em meio a tato, todo caos, vivem vidas submersas. Carpas de olhos fechados que não sabem o que se passa ali. Aves que se libertam. Há algo sim, que resiste.
Televisão. Luz de TV. Tempo de TV.
Homem-máquina. Maquinação de corpos. Corpos fabricados, embreados
Senti um vento frio que me gelou o espinho. Tudo muito grande acaba virad u breu, pessoas se perdem no espaço ou o espaço perde as pessoas! Lá viramos máquinas, pássaros ou simplesmente pó!?!
As cenas nascem de imagens, às vezes o tempo que temos é para isso mesmo, ver e fazer.
O espaço é pesado e a gente sente esse peso sobre o nosso corpo. É difícil se livrar das informações dele. Como disse, a gente fica um pouco máquina, ou mesmo uma sensação de estar fora do lugar. As cenas são sempre fechadas, não, essa não é a palavra, mas tem em si um pânico, um encaixotamento, o espaço é grande, mas aprisiona de certo modo. É difícil pensar em fluidez, e redondos, em relações mais afinadas,
Vontade de voar, de ir para o alto, vertigem de altura. Pessoas em alta velocidade que saltam, trepam, escalam, correm em todos os níveis e lugares. Várias mãos, pernas, cabeças sob todos os ângulos que somem e aparecem rapidamente para depois voltarem a sumir e aparecer.
Vontade de sentir o chão tremer, junto com todo o resto.
A Hidráulica é um lugar de concreto que ainda não tem alma, um lugar agreste e difícil de se ter acesso, assim como um labirinto onde nunca se consegue ter a noção de todo. É um espaço em que fica muito difícil de se ouvir não só pela acústica desfavorável mas também pela dispersão de atenção que proporciona.
Há uns dias atrás pesei: “Ai, acho que deveríamos ter ficado com o velódromo. Acho que a Hidráulica não ta rolando”. Às vezes penso isso um pouco com aquela bagunça, a sujeira não me incomoda, mas a bagunça às vezes, a falta de clareza, a dificuldade de vê-la sinto falta de céu, luz mesmo luz da noite, parece que aquelas janelas nunca iluminam lá dentro e falta calor, vida.
Água, ferrugem, cheiro, barulho, Isaura, mulher de ferro e água, água subterrânea, submersão, imensidão ocre, ganchos. Pequenos recortes que se revelam, mas ainda não formam um todo.
Tenho a sensação de estar num formigueiro, cheio de caminhos a serem descobertos tudo muito grande, tenho a impressão de estar num lugar vazio, mesmo com tantas máquinas.
O cheiro de ferrugem e o ar parado. Máquinas adormecidas, um passado quieto, verde das firmas que conheci quando era pequena. Sempre imagino carpas nos tanques com água, carpas escuras e de olhos fechados. Me sinto pequenina, andar se torna uma ato grande, assim como respirar. A luz é amarela, branca, não sei, cansa, é como se eu ficasse um pouco máquina lá dentro, meio verde. É difícil manter a atenção, são tantas informações e buracos... frio, graxa, portões gigantes.
Grande, alto, largo, misterioso, macabro, eco. Longo caminho a ser percorrido. Luzes, vazio, esconderijo. “Isaura, mulher de ferro e água”.
Cheiro de mofo, frio, umidade, calafrio, grande, pesado, verde, sugador, morto, curioso, impressionante, surpreendente, sujo, escuro, alto, maquinal, quadrado, cronometrado, pó.
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