A quem falamos? Para quem encenamos? Quem é nosso público?

Para nós mesmos. Para o ar congelado, onde queremos mostrar a ele que existe vida e movimento na hidráulica. Para as máquinas que nos usa para conversar, já que elas não têm com quem falar.

 

Falamos para o público e para quem quiser ouvir, ora falamos com as máquinas e com tudo que tem ali. No fundo falamos para nós mesmos para o tempo. Talvez alguém interessado em teatro ou cinema.

 

Ai. Toda humanidade parece imbecil. Não vejo as coisas como sendo para alguém em especial, talvez não me pareça: Ai, ai. Para todos que buscam se verem como responsáveis pela humanidade, pelo rumo dela, pela sua história. Um público que vê sempre a ‘responsa’ em outro lugar, que não em si. Os professores e alunos da USP.

 

Eu não sei mesmo, de algum modo para todos, pois acho que essa busca de ancestralidade, os questionamentos que estão surgindo não são específicos a grupos, mas a todos. É uma relação do homem e sua criação, do tempo assado e a pressa dos dias. Acho que o público pode ser qualquer um que queira tocar um pouco nessa ferida, nesse masoquismo de pensar e repesar, sentir, criar novos mundos.

 

Pessoas inquietas. Duras – o oposto de moles. Insatisfeitas. Boas inquisidoras. Reflexivas. Jovens. Estudantes da USP. Senhores da POLI, transmutados hidráulicos. Seres humanos duros e moles ($). Quem cansou da TV, de entretenimento, de ver o tempo passar, de pagar o preço da pressa. Um pipoqueiro.

 

 (ou resposta para outra pergunta, sobre o tempo presente)

O que é a verdade e o que é o irreal? Me comunico com as paredes e as máquinas como se delas emergissem rostos, com ouvidos, que pudessem ver e ouvir. O que me aflige é esses rostos desses seres serem mudos: a réplica é telepática, lhes ouço na minha mente. Vou pirar.

 

 Desculpa, não sei responder.

 

No início achei que essa era uma pesquisa que só interessasse a pessoas de teatro, uma vez que seria um resultado muito técnico, mas da primeira vez que vi as coisas acontecerem na hidráulica, vi que é um trabalho para pessoas que entendem e se sensibilizam com as imagens por outras vias que não sejam as racionais. Quando entro na hidráulica, entro como em uma exposição de vídeo arte, numa galeria... Eu sou um público.

 

 

 

O que o espaço suscitou? O que estamos falando?

 

Me traz a idéia de missão, como chegar em uma casa nova  e botar ordem na bagunça. Hora de lembrar do passado e planejar o futuro. Junto com isso, viver momentos marcantes. A missão para mim é mudar a cara do espaço, é encontrar essa nova cara...

 

Falamos com o tempo, como máquinas. Acho que há uma grande influência nisso. Crises, stress. Queremos por vida, movimentar, responder o oposto do que o espaço nos quer expressar. Morte, a luzes de hospital. Recortes demais, nos dá vontade de sermos uma foto. Quanto mais gritamos, menos escutamos. Parece que o espaço não deixa fazer o que queremos.

 

Abstrair o concreto, o ferro, o aço, a água. Levar a voz a todos os lugares, até debaixo de nós. Vontade de saltar, pular muito alto. Vontade de crescer. Dar o troco: engolir o espaço que tenta me engolir. Explorar o inexplorável: até as águas que dão nojo. Adentrar o subsolo oco que desconhecemos.

 

Neste espaço parece que a dimensão humana se abala, o olhar se torna mais reto e fica menos subjetivo... mas os pequenos esconderijos já começam a ganhar significação. O corpo se perde mais e fica mais permeado pelos outros elementos do lugar. Nada me vem a cabeça que seja leve ou feliz, é tudo muito pesado e duro. Algumas imagens começaram a surgir e os sons são interessantes, mas assustadores.

 

Fala pelo contrário, da vida do corpo da alma, suscitou tudo aquilo de mais primitivo e tudo que acaba com a espontaneidade. Admirar nossa desgraça, mas ver que o primordial – vivo - está ali. Os pássaros, o coro, os macacos, a curiosidade em meio a tato, todo caos, vivem vidas submersas. Carpas de olhos fechados que não sabem o que se passa ali. Aves que se libertam. Há algo sim, que resiste.

Televisão. Luz de TV. Tempo de TV.

 

Homem-máquina. Maquinação de corpos. Corpos fabricados, embreados em máquinas. O mergulho humano na ciência a despeito da religião. O sonho do progresso, de ir para a Lua, voar, uma cidade invisível do futuro, sem ar, sem vida, inumana, como será a vida? Na hidráulica não tem água. No mundo a água acaba. A vida com assepsia, clínica, científica, fabricada em laboratório. A presença da TV. Os desencontros. A imagem, o simulacro mais vivo e visível que o homem. O trabalho do homem no mundo. O Peso da humanidade, espécie de culpa. Matrix do passado. Mecânico, antes da eletrônica, Matrix dos Jetsons.

 

Senti um vento frio que me gelou o espinho. Tudo muito grande acaba virad u breu, pessoas se perdem no espaço ou o espaço perde as pessoas! Lá viramos máquinas, pássaros ou simplesmente pó!?!

As cenas nascem de imagens, às vezes o tempo que temos é para isso mesmo, ver e fazer.

 

O espaço é pesado e a gente sente esse peso sobre o nosso corpo. É difícil se livrar das informações dele. Como disse, a gente fica um pouco máquina, ou mesmo uma sensação de estar fora do lugar. As cenas são sempre fechadas, não, essa não é a palavra, mas tem em si um pânico, um encaixotamento, o espaço é grande, mas aprisiona de certo modo. É difícil pensar em fluidez, e redondos, em relações mais afinadas, em calor. Tudo ali tem um quê de passado. De lembrança guardada fundo demais, de um espaço esquecido da memória. O labirinto faz sentido, sempre penso nessa incomunicabilidade desses compartimentos.

impressões hidráulicas

 

Vontade de voar, de ir para o alto, vertigem de altura. Pessoas em alta velocidade que saltam, trepam, escalam, correm em todos os níveis e lugares. Várias mãos, pernas, cabeças sob todos os ângulos que somem e aparecem rapidamente para depois voltarem a sumir e aparecer.

Vontade de sentir o chão tremer, junto com todo o resto.

 

A Hidráulica é um lugar de concreto que ainda não tem alma, um lugar agreste e difícil de se ter acesso, assim como um labirinto onde nunca se consegue ter a noção de todo. É um espaço em que fica muito difícil de se ouvir não só pela acústica desfavorável mas também pela dispersão de atenção que proporciona.

 

Há uns dias atrás pesei: “Ai, acho que deveríamos ter ficado com o velódromo. Acho que a Hidráulica não ta rolando”. Às vezes penso isso um pouco com aquela bagunça, a sujeira não me incomoda, mas a bagunça às vezes, a falta de clareza, a dificuldade de vê-la sinto falta de céu, luz mesmo luz da noite, parece que aquelas janelas nunca iluminam lá dentro e falta calor, vida.

 

Água, ferrugem, cheiro, barulho, Isaura, mulher de ferro e água, água subterrânea, submersão, imensidão ocre, ganchos. Pequenos recortes que se revelam, mas ainda não formam um todo.

 

Tenho a sensação de estar num formigueiro, cheio de caminhos a serem descobertos tudo muito grande, tenho a impressão de estar num lugar vazio, mesmo com tantas máquinas.

 

O cheiro de ferrugem e o ar parado. Máquinas adormecidas, um passado quieto, verde das firmas que conheci quando era pequena. Sempre imagino carpas nos tanques com água, carpas escuras e de olhos fechados. Me sinto pequenina, andar se torna uma ato grande, assim como respirar. A luz é amarela, branca, não sei, cansa, é como se eu ficasse um pouco máquina lá dentro, meio verde. É difícil manter a atenção, são tantas informações e buracos... frio, graxa, portões gigantes.

 

Grande, alto, largo, misterioso, macabro, eco. Longo caminho a ser percorrido. Luzes, vazio, esconderijo. “Isaura, mulher de ferro e água”.

 

Cheiro de mofo, frio, umidade, calafrio, grande, pesado, verde, sugador, morto, curioso, impressionante, surpreendente, sujo, escuro, alto, maquinal, quadrado, cronometrado, pó.

 

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